sábado, 2 de julho de 2016

A culpa é das estrelas não é tão "teen" assim

Há um tempo atrás o livro “a culpa é das estrelas” se tornou o livro pop do momento. E como todo movimento artístico que populariza surgiu, naturalmente, críticos ao chamado “modismo”. Normalmente são pessoas que não leram o livro, mas o repudiam por este ser algo popular – principalmente entre os adolescentes- mesmo sem se dar ao livro a possibilidade de se redimir. Sendo assim é importante fazer uma observação. Nem tudo que é popular necessariamente é banal. Apesar de podermos citar vários exemplos de figuras populares que não agregam em nada na vida das pessoas, ainda sim, é possível existir livros, filmes, peças de teatro que sejam populares e que ao ser analisado de um ponto de vista mais profundo podemos encontrar mensagens intrigantes.
Este é o caso do “modismo” de Jhon Green. O livro conta história de Hazel que conhece Gus em um grupo de apoio a pacientes com câncer. Eles se apaixonam, iniciam um namoro que passa por alguns obstáculos. Até aqui um livro aparentemente normal. Aqueles que escutam somente essas características da história vão considera-lo somente um romance entre adolescentes mesmo.
No entanto, Jhon Green surpreende quando analisamos os propósitos e as mensagens contidas no livro. A referência de Green no livro é a obra de Shakespeare. Para o ícone da literatura inglesa a ideia de sua época de atribuir os problemas que encontravam nas suas vidas aos astros, estrelas era um escapismo diante da própria fraqueza. Para Shakespeare, se você não conseguiu algo – um desejo ou sonho- isso é de sua responsabilidade, não de fatores externos, metafísicos. Logo a culpa não é das estrelas a culpa é sua.
Green, um jovem escritor americano do século 21, questiona esse pensamento. Existem fatores em nossas vidas nas quais não podemos escolher ou determinar. Um acidente, uma doença, uma perda, pode mudar nossa vida e nossos planos para sempre. No livro, ele exemplifica essa crítica com o personagem Gus. Este possui diversos sonhos de se tornar um grande homem, entrar para a história –como um ser humano deve ser de acordo com Shakespeare- mas vê sua vida e planos ser interrompidos por algo que não conseguem determinar, algo cujo a culpa não foi dele, a culpa foi das estrelas.

É claro que debates mais profundos sobre esses conceitos podem ser feitos, mas isso fica por conta dos filósofos de plantão. Por mim o livro – que li a muito tempo atrás enquanto ainda era modinha- levanta um debate interessante que pode nos tirar da posição de culpar para de compreender.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Filme: Ultimo trem para Lisboa

“Viajamos ao nosso encontro quando vamos a um lugar onde vivemos parte de nossa vida, não importa quão breve tenha sido”
-Amadeu do padro
O filme ultimo trem para Lisboa conta a história de um professor chamado Raimund que vive em Bernie na Suíça. No caminho de seu trabalho encontra uma mulher em cima de uma ponte prestes ao suicídio.  Raimund salva a mulher e leva para a sua sala de aula. Pouco tempo depois a mulher some deixando apenas um casaco com um livro e uma passagem de trem para Lisboa. Raimund pega o trem e vai à procura do autor do livro encontra-lo para encontrar, ou a mulher ou explicações. No meio do caminho a leitura do tal livro gera uma série de reflexões para o professor. O livro em questão é de Amadeu do Prado um jovem escritor que participou da resistência contra a ditadura de Salazar.
Salazar foi um ditador fascista que governou Portugal durante 41 anos. Se caracterizou por um governo autoritário, com medidas econômicas nacionalistas, uma forte censura contra imprensa, opositores etc. A ditadura acabou logo após a morte de Salazar a sucessão de Marcelo Caetano e a revolução dos cravos.
O escritor em questão, Amadeu do Prado, era médico mas tinha um forte gosto por filosofia e por escrever. Após chegar em Lisboa, Raimund procura conhecer a história de Amadeu e sua atuação na resistência.  O escritório de Amadeu foi usado pela resistência como centro de encontro por membros da resistência. Durante o triste cenário de ditadura surge a incrível história de amor com Amadeu.
Um sentimento que provoca no telespectador durante o filme é a sensação de perseguição contra dissidentes políticos. Podemos sentir, ao ver os personagens, o medo de cada um de ser capturado. Algo próximo com o que descrito no livro “As espiãs do dia D” já resenhado aqui no blog.
A ideia de “uma vida que vale a pena ser vivida” também é um tema frequente. Afinal é possível notar uma grande diferença entre a vida agitada, repleta de perseguições, e amorosa, com amores em meio a uma guerra, do Amadeu (o escritor) e do professor Raimund, um senhor de idade, solteiro, com uma vida pacata.

Um filme bem feito e que gera, ao telespectador, uma série de questões sobre a vida, amores entre outras coisas. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Livro: O oceano no fim do caminho

Existem livros que eu já li, livros que eu quero ler, livros que eu quero reler, e livros que eu preciso reler. Este é o caso de o oceano no fim do caminho do escritor Neil Gaiman. Este é o tipo de livro em que suas mensagens não estão explícitas como em outros, mas devem ser interpretadas. Esta intepretação tem um critério individual muito forte. Por exemplo, um personagem pode significar algo terrível para alguns ou não ter significado para outros.
Mas vamos ao livro. O oceano no fim do caminho conta a história de um homem que volta a sua vila de infância para um funeral. Este homem não tem nome no livro, o que dá a entender que se trata de um personagem autobiográfico, ou seja o próprio Neil Gaiman. Esta viagem faz o homem se lembrar de alguns eventos em sua infância.
O livro começa a retratar a infância deste homem. Uma criança que gosta de fugir da realidade -digamos escapes – com livros. Seus pais estão com passando por problemas financeiros e por isso decidem alugar um quarto da casa para um sul-africano. Este tem como característica a necessidade de pagar suas contas. Em parte do livro ele atropela o gato do protagonista, logo depois dá ao garoto um outro gato como forma de “recompensar”.
Porém este sul-africano estava devendo dinheiro e não conseguia pagar. Por isso decidiu se matar no carro da família. O ocorrido, é claro, marca a vida do garoto.
Logo depois a garoto conhece uma fazenda próximo de sua casa, a fazenda das Hempstock, que possui um lago no fundo. Este lago é chamado de oceano (dai o oceano no fim do caminho).
Quem gosta de livros provavelmente irá se identificar com o personagem principal. Sabe quando você lê um livro para fugir da realidade? Pois é, este escapismo é uma das características mais marcantes do personagem principal.
Recomendo este e outros títulos de Neil Gaiman, assim como coraline ou A verdade é uma caverna nas montanhas escuras (logo tem resenha). Gaiman é um dos grandes nomes do pós-modernismo. E o oceano no fim do caminho é mais uma de suas brilhantes obras.

sábado, 18 de junho de 2016

Filme: O discurso do rei

O filme O discurso do rei é escrito por David Seidler e dirigido por Tom Hooper. É baseado em fatos reais durante a Inglaterra na segunda guerra mundial. Conta a história do Príncipe Albert, duque de York, apelidado de Bertie. Sendo o segundo filho do Rei Jorge V Albert não estava na linha sucessória do pai para ser coroado rei. Tal destino era reservado ao seu irmão David, o príncipe de Gales, que com a morte de Jorge V assume o trono. Porém David decide se casar com Wallis Simpson, uma americana que já havia divorciada duas vezes, para tanto David decide abdicar do trono. Com isso o responsável para a tarefa de rei passava ao segundo filho de Jorge V, o duque de York Albert, ou melhor Bertie. 
          Ser rei na Inglaterra é ter um poder simbólico mas a ocasião em que Bertie assumiu teve bastante significado. Primeiro era o início do rádio, segundo a Inglaterra estava envolvida em uma das maiores guerras de todos os tempos. A segunda guerra mundial. 
          A importância do rádio decorre do fato de que era a primeira vez que o rei poderia se comunicar com toda a população (O rei Jorge V foi o primeiro). O que hoje parece comum, estar assistindo TV e de repente o presidente aparece o presidente para se comunicar com todos, antes do rádio era incomum. Não havia tecnologias para o rei comunicar com todos os súditos de forma instantânea.
         Uma música de Freddie Mercury chamada radio ga ga expressa esse momento do rádio. A tradução é algo como: “Eu me sentava sozinho, e assistia a sua luz, meu único amigo, pelas noite adolescentes, e tudo que eu tinha que saber eu escutava no meu rádio” Ou seja o rádio como única fonte de conhecimento em uma época onde não havia internet, televisão e outros maneiras de uma pessoa se comunicar com vários.
          O contexto histórico deixa o momento ainda mais interessante. Bertie se torna rei durante a segunda guerra mundial. A Inglaterra declarava guerra contra a poderosa Alemanha de Hitler. Naquele momento a imagem do rei era extremamente importante. O rei era a figura que iria se comunicar com a população, dar um norte a todos, acalma-los, mostrar que a Inglaterra –mesmo em crise- enfrentaria com coragem os desafios. Havia apenas um problema.
          Bertie era gago. Agora pense, O rei, desde a revolução gloriosa na Inglaterra, era uma figura meramente simbólica. Entre suas funções estava a comunicação com a população. Agora tendo um rei gago como essa comunicação seria feita? Como o rei poderia acalmar e dar o norte para a população?
          Bertie enfrenta, durante todo o filme um longo processo para curar sua gagueira com um fonoaudiólogo um tanto “diferente” digamos.
          O filme é recomendado a todos que desejam um bom filme sobre história, no caso a Inglaterra na segunda guerra e suas crises internas e/ou refletir sobre a as mudanças que as novas tecnologias promovem na sociedade. O filme recebeu diversos prêmios. Possui um enredo envolvente e interessante. Recomendo à todos.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Livro: As seis lições

“Quanto mais se eleva o capital investido por individuo, mais próspero se torna o país”
-Mises

Em 1958 o economista Ludwig Heinrich Edler Von Mises foi para a Argentina para realizar algumas palestras sobre economia. No total foram seis palestras abordando seis temas diferentes sendo eles capitalismo, socialismo, inflação, investimento externo e ideias. Essas palestras foram descritas por sua esposa no excelente livro “as seis lições”.
Mises é um dos economistas mais importantes da famosa escola austríaca (escola de economistas que defendem a liberdade de mercado). Uma de suas contribuições mais famosas para a economia é o problema do cálculo econômico, problema que é debatido até hoje em escolas econômicas.
Fazendo alguns breves comentários sobre a obra de Mises.
No livro, Mises inicia desmistificando diversos aspectos e críticas que o livre mercado recebe. Sobre o capitalismo (a primeira lição) ele diz “O desenvolvimento do capitalismo consiste em que cada homem tem o direito de servir melhor e/ou mais barato seu cliente”. Tal definição desmonta a visão de que o capitalismo é um sistema opressor que gera pobreza.  A pobreza não nasceu no capitalismo. No feudalismo, por exemplo, grande parte da sociedade era pobre e não possuía condições de melhorar de vida (sociedade quase estamental). Com o advento do capitalismo começou a se gerar riqueza.
O ódio ao capitalismo, segundo o autor, não teve origem nos trabalhadores e sim entre os mais ricos. Segue o trecho do livro “É fato que o ódio ao capitalismo nasceu não entre o povo, não entre os próprios trabalhadores, mas em meio à aristocracia fundiária – a pequena nobreza da Inglaterra e da Europa continental. Culpavam o capitalismo por algo que não lhes era muito agradável: no início do século XIX, os salários mais altos pagos pelas indústrias aos trabalhadores forçaram a aristocracia agrária a pagar salários igualmente altos aos seus trabalhadores agrícolas. A aristocracia atacava a indústria criticando o padrão de vida das massas trabalhadora, do nosso ponto de vista, o padrão de vida dos trabalhadores era extremamente baixo. Mas, se as condições de vida nos primórdios do capitalismo eram absolutamente escandalosas, não era porque as recém-criadas indústrias capitalistas estivessem prejudicando os trabalhadores: as pessoas contratadas pelas fábricas já subsistiam antes em condições praticamente subumanas.” Isso mostra um caráter revolucionário do capitalismo, no sentido que sua prática desafiou o interesse daqueles que se consideravam iluminados.
Outro ponto levantado sobre o capitalismo é interessante no livro. De acordo com Mises “Quanto mais se eleva o capital investido por individuo, mais próspero se torna o pais.” Isso ataca duas visões. Uma antiga outra mais contemporânea. A primeira de que um pais rico é aquele que possui mais metais preciosos (mercantilismo). Adam Smith já refutou esta ideia.  Atualmente alguns creem de que um pais próspero é um pais sem desigualdade. Bem se isso é verdade então a Etiópia é um pais próspero. Afinal, de acordo com o índice Gini (que mede a desigualdade social) a Etiópia está bem colocada. Mas o Idh (Índice de desenvolvimento humano) é baixíssimo. Porque? Porque, como Mises explica a riqueza está no capital investido no indivíduo. Um pais pode acabar com a desigualdade social deixando todos pobres. Ou seja não haver desigualdade não é sinal de pais próspero.
Mises é um critico ferrenho ao autoritarismo. Ele aponta como a falta de liberdade econômica pode levar ao autoritarismo. Segue o trecho “Se (o governo) for o dono de todas as máquinas impressoras, o governo determinará o que deve e o que não deve ser impresso. Nesse caso, a possibilidade de se publicar qualquer tipo de crítica ás ideias oficiais torna-se praticamente nula”. Ou seja, não é preciso que o estado destrua todas as instituições, use o exército contra a população, não, basta ter o monopólio de uma forma de comunicação ou simplesmente de papel, afinal sem papel, sem jornais.
Outro tema muito recorrente quando o assunto é capitalismo é a liberdade. Afinal, existe ou não liberdade no capitalismo? Mises argumenta “É verdade que a liberdade possível numa economia de mercado não é uma liberdade perfeita no sentido metafisico. Mas a liberdade perfeita não existe. É só no âmbito da sociedade que a liberdade tem algum significado. Os pensadores que desenvolveram, no século XVIII, a ideia da lei natural – sobretudo Jean-Jacques Rosseau (Pensador iluminista francês) – acreditavam que um dia, num passado remoto, os homens haviam desfrutado de algo chamado liberdade natural. Mas nesses tempos remotos os homens não eram livres – estavam à mercê de todos os que fossem mais fortes que eles mesmos. As famosas palavras de Rosseau ‘o homem nasceu livre e se encontra acorrentado em toda parte’, talvez soem bem, mas na verdade o homem não nasceu livre. Nasceu como uma criança frágil de peito. Sem a proteção dos pais, sem a proteção proporcionada na sociedade, não teria sobrevivido.”. Podemos pensar em um exemplo. Eu sou livre para viajar até Santos agora? A resposta é sim. Eu posso ir andando daqui de São Paulo até a cidade de Santos. No entanto tal percurso é meio difícil mas eu possuo a liberdade para ir até lá. Mas seria mais fácil se eu viajasse de ônibus. Logo surge a questão. Eu tenho a liberdade de viajar de ônibus até Santos? A resposta é: Não se trata de uma liberdade. Afinal eu não criei o ônibus, este foi feito por outras pessoas, usá-lo sem uma troca consentida entre eu e os criadores do ônibus trata-se de um roubo. Logo, trata-se de cercear a liberdade do outro que produziu. Portanto o capitalismo propicia a liberdade individual mas os críticos querem que a liberdade natural intangível este nenhum sistema proporcionou o proporcionará na história.
O socialismo é uma das ideias mais combatidas por Mises. Uma de suas críticas fundamentais (além do problema do cálculo econômico) é com relação a divulgação de problemas e soluções para a sociedade. Segue o trecho “Quando alguém tem uma ideia (no capitalismo), procura encontrar algumas outras pessoas argutas o suficiente para perceberam o valor de seu achado. Alguns capitalistas que ousam perscrutar o futuro, que se dão conta dão possíveis consequências dessa ideia, começarão a pô-la em pratica. Outros, a princípio, poderão dizer: ‘são uns loucos’ mas deixaram de dizê-lo quando constatarem que o empreendimento que qualificam de absurdo ou loucura está florescendo, e que toda gente está feliz por comprar seus produtos. No sistema marxista, por outro lado, o corpo governamental supremo deve primeiro ser convencido do valor de uma ideia antes que ela possa ser levada adiante”.  Isso é possível ser notado com novidades tecnológicas. No capitalismo americano uma empresa pode desenvolver tecnologias como o carro elétrico livremente para solucionar problemas como a poluição atmosférica. Em um sistema marxista tal carro passaria por uma imensa burocracia e provavelmente não surgiria a não ser que um burocrata do governo se beneficie de alguma forma. E se viesse a realidade seria uma tecnologia próxima aos flintstones.

Mises também aponta uma diferença fundamental entre empresas privadas e públicas. Segue o trecho “A situação do indivíduo é bem diversa. Sua capacidade de gerir um empreendimento deficitário é muito restrita. Se o déficit não for logo eliminado, e se a empresa não se tomar lucrativa o indivíduo vai à falência e a empresa acaba. Já o governo goza de condições diferentes. Pode ir em frente com um déficit, porque tem o poder de impor tributos à população”. Mises não era vidente mas este trecho parece uma previsão do atual cenário brasileiro. Uma empresa como a Petrobrás abrigando ratos como diretores que sugaram a empresa para conseguir benefícios políticos e individuais certamente estaria na falência se fosse privada e mal administrada como foi.

Por fim esses comentários que faço são apenas um brevíssimo recorte do belo e esclarecedor livro de Mises que aborda questões como inflação, império Romano, idade média, nazismo e muitos outros temas. Recomendo a leitura imediata para aqueles que não conhecem está magnifica obra. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Livro: As espiãs do dia D

“Não seria uma guerra se pessoas não morressem”
-Flick
O livro “As espiãs do dia D” do escritor britânico Ken Follet é um dos livros mais emocionantes que já li. A história conta a luta de cinco mulheres de lideradas por Flick com intuito de explodir uma central telefônica nazista instalada na França durante a resistência francesa. Com o desenvolver da trama, repleta de revira voltas, é possível ver dois estrategistas duelando. Do lado francês Flick tenta manter uma equipe totalmente inexperiente para uma missão de alto risco. Invadir a central telefônica como faxineira e instalar bombas nos cabos de comunicação nazista. Do outro lado Dieter, o alemão, tenta descobrir, desmantelar e destruir o que ele chamava de “terroristas” (como ele se referia aos franceses que lutaram contra a invasão alemã).
Saindo da ficção e olhando para a história vale lembrar a história de Pearl Witherington, uma mensageira treinada pelo serviço secreto inglês, assumiu com bravura o comando de um grupo de cerca de dois mil guerrilheiros clandestinos da resistência francesa na região de Berry. Witherington foi contemplada com a categoria civil da ordem do império britânico mas recusou pois afirmou que “não ter feito nada que pudesse ser classificado como civil”. Ela não foi coroada com a Cruz militar por ser mulher.
Voltando ao livro. As espiãs do dia D nos traz um forte retrato de como de fato é uma guerra e como a mesma nos desumaniza.  A sensação de que algo terrível pode ocorrer com os personagens permanece o livro inteiro. O medo de que em um amanhecer um grupo da gestapo (polícia alemã nazista que perseguia opositores) pode estar na frente de sua casa. Tal sensação ilustra, de forma sutil, o que era estar em um pais em guerra, e pior ainda, no caso da França na segunda guerra, um pais perdendo a guerra. É importante lembrar que o livro se refere à resistentes, ou seja, pessoas que queriam enfrentar os inimigos. Muito diferente dos judeus na Alemanha que foram simplesmente atacados por serem judeus. O que deve ser ainda mais aterrorizante.
Um trecho de uma conversa entre Flick e Paul no livro, Flick diz (não é spoiler) “É importante as pessoas conhecerem a cultura dos outros, pois isto pode evitar o ódio entre elas”. Pois bem, esta ai um traço da importância da cultura nos dias de hoje. Apresentar grupos diferentes uns aos outros. Ou seja, o cara do centro de SP deve conhecer a cultura do homem do interior e a capoeira que veio da África. E vice-versa. Esta frase de Flick pode ser aplicada até em pessoas. Conhecer um homossexual, por exemplo, pode fazer a concepção de um homofóbico mudar, porque ele irá ver que não se trata de nenhum monstro.
Por último é importante ressaltar a figura de Dieter. O militar alemão é, de fato, uma figura intrigante. Durante o livro é possível perceber um Dieter estrategista, reflexivo, nazista e humano. O estrategista é um Dieter que sabe exatamente como realizar as secções de tortura e perseguir adversários. Sua capacidade de realizar interrogatórios contra os franceses capturados é assustadoramente impressionante. Dieter não usa somente a força física, ele sabe atingir os sentimentos, o coração, o que há de mais importante para a vítima. Hora ele humilha a dignidade, outra ele fere o amor entre duas pessoas ou age de forma e deixar a vítima louca. Outro lado é um Dieter que faz diversas transgressões filosóficas sobre a vida durante o livro, como em suas conversas com a amante. O seu lado nazista também é bastante explorado no livro. Ele se refere aos líderes da resistência como terroristas ou pessoas indignas. O que explica o seu ódio aos adversários, que não se resumia a uma questão ideológica, Dieter de fato odiava seus adversários e isto fica muito evidente durante o livro. Além disso é impressionante como um cara que fez reflexões tão profundas sobre a vida, em partes do livro, não consegue questionar uma ideologia tão estúpida como o nazismo.
O último Dieter a se analisar é o humano. O Dieter que tem filho, esposa, dorme, ama, sente, chora, ri etc. Este é o mais intrigante pois em certos momentos do livro é possível sentir tristeza ao ver este Dieter, que se mantem longe da família, de quem ama e precisa tomar remédios pesados para dormir. Podemos ver a figura por traz do vilão. Uma figura que também possui seus demônios.

Por fim recomendo fortemente o livro. Além de emocionante mostra uma história que não é muito discutida nas escolas. A resistência francesa, e ainda mais mostra a força da mulher na luta contra o avanço do nazismo. Que sejam em campos como Pearl ou em fábricas na Inglaterra, substituindo os homens, entraram para a história.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Filme: Blade Runner

O filme Blade Runner é um clássico da ficção cientifica criado de 1982 dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford. No lançamento do filme o mesmo chegou a receber várias críticas, porém após ser relançado alguns anos depois foi considerado um clássico. O filme aborda diversas questões de natureza social e filosófica que pode passar despercebido para um telespectador desatento. 
A história se passa em Los Angeles no futuro. Porém um futuro que aborda dois aspectos que podem ser analisados. Alta tecnologia e poluição. Tanto que o cenário do filme é uma referência ao cyber punk (High tech, low life). Neste aspecto já é possível perceber um ponto de vista do filme. Diferente de outras visões mais otimistas de um futuro belo e com alta tecnologia. Blade Runner mostra que mesmo que esta alta tecnologia a vida com grandes problemas ambientais não é nada fácil.
Nesta Los Angeles do futuro a humanidade desenvolve seres chamados de replicante. Que são seres parecidos com humanos, com memórias implantadas, e usados em determinadas atividades. Um tipo de avançado de replicante chamado Nexus-6 consegue desenvolver a capacidade de ter emoções. Por isto os criadores decidem restringir a vida de um replicante para somente quatro anos. Mas os replicantes se revoltam e são banidos da terra. Desde então qualquer replicante encontrado na terra deviria ser morto e o responsável por fazer isto é um Blade Runner.
Um grupo de replicantes chegam á Terra com o intuito de encontrar seu criador e poder viver mais. Para matar estes replicantes é chamado Deckard, um Blade Runner aposentado, que persegue os replicantes.
Mas quais questões filosóficas o filme aborda? A questão do que é ser, humano.
Afinal, o que diferencia o ser humano de um replicante? O que garante que Deckard é ou não um replicante? (Aliás isso é um grande debate no filme) Se clonassem um ser humano, com as mesmas memórias de seu clone, como o clone vai saber que é um clone? Sendo que para ele, sua vida está guardada em memórias. Enfim o que é ser humano?  Esse é o grande debate no filme.
Aos que já assistiram, saibam que na minha opinião Deckard também é um replicante, afinal ele demonstra estar, no filme inteiro, em busca de uma identidade.
Por fim recomendo o filme Blade Runner, um clássico da ficção cientifica, alias recomendo que você assista duas vezes para conseguir captar todas as mensagens do filme.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O "minha luta" no Brasil

O livro "minha luta" de Hitler passou a ser de domínio público, o que fez com que várias editoras decidissem publica-lo. No entanto um juiz do Rio de Janeiro decidiu proibir a venda do mesmo. A proibição gerou debates e discussões que vão desde a liberdade de expressão até o medo de incentivar nazistas ou influenciar pessoas. Porém a proibição mostra um grave problema do estado brasileiro. Afinal deve-se proibir o livro de Hitler? Devemos esquecer a tragédia do nazismo?
O nazismo foi uma tragédia. O holocausto mostrou até onde pode ir a crueldade humana. Talvez, por esta análise, até que faz sentido proibir o livro de Hitler. Afinal o mesmo poderia influenciar outras pessoas ao antissemitismo. Porém, há um erro neste raciocínio, pois não foi somente o livro de Hitler que criou o antissemitismo.  Diversos países fizeram a emancipação judaica entre 1791 (França) ate 1923 (Romênia) e a população nestes países não aceitavam esta emancipação, por isto começaram a atacar os judeus. (Essa foi uma das razões da criação do movimento sionista). Ou seja, o antissemitismo já existia na Europa e no mundo. A diferença no livro de Hitler é que possuía uma linguagem mais acessível e colocava nos judeus a culpa pela derrota da Alemanha na primeira guerra, o que agradou muitos alemães.
Mas, e a liberdade de escolha? A liberdade de nós como indivíduos de comprarmos o livro que desejarmos? De podermos escolher o que ler ou não ler. De até poder fazer um boa critica ao livro. Pelo jeito, o juiz carioca não considerou os leitores como adultos. Para ele somos crianças que precisam ser tuteladas e não pode ter contato com determinados livros.
Outro ponto é óbvio, não adianta proibir um livro hoje que foi escrito tanto tempo atrás. O "minha luta" pode ser facilmente encontrado aqui na internet para qualquer um ler. E mesmo que o tal juiz decidisse proibir o livro na internet, o pessoal ainda conseguiria divulga-lo de alguma forma.
Vale lembrar também da importância do livro como documento histórico. Ou seja como a representação de um pensamento que dominou a Europa no século passado. As pessoas devem conhecer o nazismo, entende-lo e por isso, sabendo de suas mazelas, proibi-lo por conta própria. Além disso, estudar o livro de Hitler nos faz entender como e porque seu pensamento funcionou e, mais importante ainda, encontrar lugares onde este pensamento pode surgir e evitar.

Portanto a decisão do juiz carioca só mostra o pensamento autoritário do estado brasileiro querendo tutelar tudo o que iremos ler, ver etc. Além de que, nos dias de hoje, este tipo de ação é totalmente inútil pois qualquer um pode baixar o livro e lê-lo sem nenhum problema. Devemos conhecer a história, nossos erros do passado e corrigi-los. O nazismo foi um erro, um grave erro, que nunca mais podemos repeti-lo, para tanto é necessário conhece-lo.

http://veja.abril.com.br/multimidia/video/minha-luta-de-hitler-nao-leia-mas-tenha-o-direito-de-comprar  Debate no club do livro da VEJA sobre a proibição

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2016/02/1738040-brincadeiras-de-carnaval.shtml Texto de João Pereira Coutinho sobre a polêmica

https://www.youtube.com/watch?v=gk78QTxEO3k Aula sobre a independência de Israel

https://www.youtube.com/watch?v=ovTc1AhYxdQ Discurso de Hitler

http://www.infoescola.com/historia/sionismo/ o que foi o sionismo?

http://lelivros.website/book/download-mein-kampf-adolf-hitler-epub-mobi-pdf/ o Livro em PDF

segunda-feira, 7 de março de 2016

Livro: Fuga do campo 14

O livro de hoje é fuga do campo 14, um relato de Shin Dong-Hyuk, um jovem que nasceu em um campo de prisioneiros da Coréia do Norte. O autor do livro é o jornalista Blaine Harden que encontrou e acompanhou o jovem alguns dias após a fuga. O livro, assustadoramente, é baseado em fatos reais e, em alguns pontos, lembra histórias da segunda guerra mundial. No entanto para entende-lo é necessário entender a história da Coreia e como o pais chegou no caos que hoje está.
A península coreana era almejada pela China, Rússia e Japão tendo sido dominada pelo Japão. No final da segunda guerra mundial e com a derrota do Japão a Coreia foi dividida entre Coréia do norte e do sul. Logo após a divisão o norte se alinhou com a URSS no comando de Kin ll Sung, o avo do atual ditador. No sul, alinhado ao EUA, Syngman Rhee assumiu o controle do sul. Após a sangrenta guerra das coreias o sul e o norte se manteve dividido sendo o sul uma ditadura até os anos 90, porém com liberdade econômica e o norte uma ditadura socialista que se mantem até hoje.
Nessa ditadura socialista foi onde nasceu Shin Dong-Hyuk no campo de prisioneiros políticos. Ele, apesar de nunca ter sido militante político, era neto de um dissidente. Shin relata momentos de tortura e tratamentos desumanos feitos pelo governo norte coreano. Ele também relata, com riqueza de detalhes, sua fuga da ditadura socialista até a China e logo após para a Coréia do sul.

O livro é altamente recomendável, possui um leitura agradável e cativante. Além de extremamente importante pois relata um cenário atual. A ditadura socialista mantem seus horrores até os dias de hoje, fazendo vítimas e mais vítimas a cada dia. Tudo para manter no poder um governo corrupto e sanguinário.

https://www.youtube.com/watch?v=mqZamsQp2rA entrevista com Shin Dong-hyuk
https://www.youtube.com/watch?v=sz0LWIaEzOk Aula sobre a guerra da Coréia

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Livro: A revolução dos Bichos

Revolução dos bichos é, possivelmente, o livro mais didático para explicar os fiascos das ditaduras socialistas. Mesmo que o próprio Orwell era socialista. O livro mostra uma consequência imediata e inevitável de revoluções socialistas, tanto que é possível fazer diversas comparações históricas com o livro.

George Orwell, nasceu na Índia quando ela era colônia inglesa. Trabalhou como jornalista e escritor criando obras memoráveis como 1984 e a revolução dos bichos este último que gerou muita polêmica. A revolução dos Bichos é um livro que critica abertamente o stalinismo, a ditadura socialista liderada por Stalin na URSS. O problema da época é que o livro foi escrito na segunda guerra mundial e, na época, Stalin estava ao lado dos aliados no combate ao nazismo. Por isso o livro foi censurado! 
No entanto, o nazismo perdeu a guerra, Hitler se matou e a cortina de ferro prevista por Churchill surgiu na Alemanha. Surgia a guerra fria. União soviética, socialista contra o capitalismo norte americano. Os Estados Unidos viu o socialismo ganhar força dai, carthago delenda est, iniciou uma grande campanha para mostrar os males do socialismo, foi então que o livro de George Orwell virou um símbolo antissocialista.
É possível que, se vivo, Orwell seria contra o uso de sua obra contra o socialismo, tendo em vista que o mesmo era socialista. Mas não há como negar, que a crítica de Orwell se aplica á qualquer ditadura socialista.
Tanto na URSS, quanto Coréia do Norte de Kin Jung, Cuba de Fidel e Che, China de Mao entre outros o processo foi o mesmo do livro.
Mas vamos ao livro, em si, Cansados de ser explorados pelo fazendeiro, os animais decidem organizar uma revolução e implantar uma nova forma de sociedade onde quem organizaria seria os próprios animais. Com o tempo os porcos começam a se comportar como os humanos se comportavam. Ou seja explorando os animais. O porco chefe, Napoleão era muito semelhante, fisicamente inclusive ao ditador Stalin.
No mundo real, a Rússia vivia uma verdadeira tirania na primeira guerra mundial na mão dos Czares que decidiram entrar na guerra mesmo diante de crise e atraso social na Rússia. Foi ai que a revolução russa derruba os Czares. Depois de alguns conflitos, Lenin assume o poder na Rússia, o fazendeiro havia sido derrubado. Lenin morre e Stalin assume o poder e continua a ditadura soviética, fazendo vítimas, mortes e pobreza.

Por fim, o livro é altamente recomendável tanto para estudar uma crítica da URSS e entender um pouco do que representou a revolução Russa.
"Ninguém jamais calculou com exatidão, nem mesmo os poetas,o quanto suporta um coração"

-Zelda Fitzgerald

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