Acabo de ler sobre uma proposta de
mudança no ECA (Estatuto da criança e do adolescente) proposto pelo tucano
Rogério Marinho, a proposta de mudança visa acabar com a "doutrinação
ideológica" nas escolas públicas, um problema sério muito debatido entre
alguns intelectuais mas tido como "bobagens" por outros. No entanto
apesar de interessante o projeto ainda apresenta alguns problemas.
Um problema nas mudanças propostas pelo
deputado são mudanças no código penal que visa incluir como crime doutrinar
crianças em escolas. Acontece que "doutrinar" nada mais é do que
"falar" por mais que seja para uma criança, doutrinação é exatamente
o que ocorre em igrejas, cultos ou seja uma ideia é proposta (de certo modo
imparcial) para a população, não podemos classificar como "crime" o
simples fato de falar. No entanto o projeto propõe mudanças importantes em
outras áreas.
A mudança mais importante é a mudança
no ECA para incluir entre os direitos da criança, o direito de adotar
posicionamento ideológicos de forma espontânea, o que não ocorre na maioria das
escolas públicas. Este problema é grave, eu mesmo estudei em escolas públicas,
tive aulas com professores Petistas e Psolistas (vale lembrar que NÃO eram
todos) , e de fato as aulas eram totalmente imparciais, e muitas vezes eram
usadas mentiras para sustentar as teses do "professor" e isto não é
um problema isolado conheço inúmeras pessoas que passaram pela mesma
doutrinação, alguns começam a levantar bandeiras de partidos, e demonizar
outros simplesmente por causa de doutrinação e isto péssimo para o debate político,
em um pais onde já se tem uma péssima educação, os poucos alunos que
"aprendem" alguma coisa enxergam o mundo com um viés ideológico.
Um exemplo clássico é sobre a crise de
29, que sempre é retratada como uma crise causada pelo liberalismo econômico,
não vejo nenhum problema em um professor explicar isto, no entanto outras
visões como a de Thomas Sowell um economista americano que diz que a crise de
29 foi causada por interferências estatais também deveriam ser analisadas e
discutidas sem que o professor imponha a sua visão para os alunos.
Outro exemplo são aulas de história que
ignoram fatos históricos no intuito de favorecer uma ideologia, por exemplo
tratar os índios brasileiros como "bom selvagens" (como dizia
Rosseau) e os portugueses como pessoas cruéis quando na verdade é um pouco mais
complexa, (recomendo o livro "guia politicamente incorreto da história do
Brasil"). A história também é ciência, uma ciência social, é pode ser
usada para favorecer um pensamento ou desmerecer outro, logo o mais correto é
analisar o maior número de acontecimentos históricos.
Alguns críticos a esse projeto alegam
que "professores que manipulam são exceções", pode até ser, nunca vi
uma pesquisa aprofundada sobre como os professores estão dando aula, mas é
importante conscientizar principalmente os pais e os próprios professores que
as aulas devem ser imparciais, sem viés ideológico e principalmente os pais
fiscalizarem a educação que os filhos estão tendo na escola em casa.
Um professor da USP de filosofia
argumentou "as crianças e adolescentes não
formam seus posicionamentos de forma “livre”. Cabe ao educador dar contextos e
apresentar pluralidade para que construam aos poucos com critérios. “Os alunos
ainda não dispõem de um repertório cultural amplo que permita decidir com
segurança acerca de conteúdos disciplinares. No máximo, conseguem repetir
opiniões veiculadas pela mídia ou as da família ou outros"
Bom, se considerarmos esse pensamento podemos imaginar um professor
nazista que decida apresentar suas visões de mundo, se não cabe ao aluno
decidir de forma "livre" e cabe ao educado dar contextos para que o
aluno aos poucos apresenta seus critérios o que impede que o professor guie o
aluno a ser um nazista? e se de fato o professor acredita que o professor deve
apresentar pluralidade para que construam aos poucos seus critérios o professor
deveria apoiar o projeto afinal ele propõe exatamente isto, ou seja que os
professores mostram um leque de opiniões e visões de mundo e não ficar limitado
a uma visão.
Não há problema e ensinar Karl Marx nas escolas públicas, o problema é que muitos professores
apresentam as ideias marxistas como se fossem únicas. O que deve ser feito em
uma sala de aula é apresentar todos os "prós" e "contra"
Marx, para que o alunos possa decidir (nem que seja quando for mais velho) o
que é mais correto.
Uma das críticas do deputado Rogério
Marinho é com relação ao caderno de teses do PT que diz "Não haverá mudança social profunda no
Brasil, se isto não for acompanhado por uma mudança cultural na
visão de mundo da maioria da população brasileira. Necessitamos tornar
hegemônicos os valores democráticos, populares e socialistas.
Mas o que temos assistido desde 2003 é uma reação das ideias
conservadoras em todos os terrenos. Isto se deve, em parte, ao fato de
que não houve nenhuma mudança estrutural no terreno da cultura, da educação e
da comunicação. Ao contrário: o grande capital e a direita não apenas
mantiveram como ampliaram sua ofensiva em cada um destes terrenos"
preste atenção nas partes em negrito.
Eles propõem uma mudança social
profunda acompanhada de uma mudança cultural, e que é necessário tornar
HEGEMÔNICOS os valores socialistas, (colocam ainda democráticos e socialistas
sendo que os regimes socialistas destruirão as democracias por onde passaram).
Uma tese absurda! ainda coloca como negativa uma reação conservadora, como se
os conservadores tivessem que se calar diante de uma tese de "mudança
cultural".
A revista "Carta Capital"
publicou alguns artigos contra a mudança, nesses artigos é dito " é impossível que um educador não revele as suas
preferências pessoais e as suas opções políticas, estéticas, religiosas etc. O
gesto educativo é um encontro de pessoa a pessoa;
é um contato de subjetividades e não de autômatos que transmitem conteúdos
pretensamente objetivos. " O mesmo exemplo usado anteriormente
vale contra a argumentação da revista. E se tivéssemos um professor Nazista que
ao falar da segunda guerra seja "impossível não revelar suas preferências
pessoais e as suas posições políticas", e com isso guiar um monte de
meninos a odiar judeus? Estamos falando de um problema sério na educação não
podemos relativiza-los.
A revista também alega "Dizer isso, porém, não justifica que o educador
comporte-se como cabo eleitoral ou propagandista de um partido, nem como
missionário de salvações religiosas ou representante de padrões estéticos ou
outros. O dilema é que um(a) educador(a) autêntico(a) transpira os valores que
formam sua vida. Seu modo de ser, independentemente de seus discursos, já basta
para que os estudantes percebam quem é a pessoa
que os educa." Não necessariamente, é possível por mais que você
defenda uma tese, ao explica-la para jovens você tendo consciência da
importância de seu trabalho ou seja estar formando a opinião de jovens,
mantenha o decoro. Como disse anteriormente tive aulas com professores bons e
imparciais, que apesar de suas posições políticas não transmitiram isso para os
alunos, mantiveram-se neutros e deixam que os alunos tomem suas próprias
decisões.
Mais
à frente a revista muda um pouco o discurso e diz "um(a) professor(a) de Filosofia que adote em sua visão-de-mundo a
perspectiva existencialista não pode despir-se dela ao apresentar a perspectiva
analítica ou outra. Será um sinal de maturidade intelectual, como dizem
as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, se o(a) educador(a)
tiver a capacidade de justificar sua perspectiva sem desprezar as outras, mas
apresentando-as com rigor teórico e respeito." Sobre um
"professor não poder se despir de sua perspectiva ao ensinar eles não
expressam nenhuma argumento (dizer que é um sinal de maturidade não é
argumento) por fim apresentar outras visões com rigor teórico e respeito é
exatamente isto que está sendo pedido, este "respeito" á ideias
opostas não está sendo feito.
Por fim, o projeto tem pontos positivos
e negativos, tenta resolver um problema sério, no caso a doutrinação ideológica
mas ao mesmo tempo pode trazer problemas pois altera o código penal
desnecessariamente. O problema da doutrinação ideológica deve ser enfrentado e
conscientizado por toda a população de forma racional.