sexta-feira, 10 de junho de 2016

Livro: As seis lições

“Quanto mais se eleva o capital investido por individuo, mais próspero se torna o país”
-Mises

Em 1958 o economista Ludwig Heinrich Edler Von Mises foi para a Argentina para realizar algumas palestras sobre economia. No total foram seis palestras abordando seis temas diferentes sendo eles capitalismo, socialismo, inflação, investimento externo e ideias. Essas palestras foram descritas por sua esposa no excelente livro “as seis lições”.
Mises é um dos economistas mais importantes da famosa escola austríaca (escola de economistas que defendem a liberdade de mercado). Uma de suas contribuições mais famosas para a economia é o problema do cálculo econômico, problema que é debatido até hoje em escolas econômicas.
Fazendo alguns breves comentários sobre a obra de Mises.
No livro, Mises inicia desmistificando diversos aspectos e críticas que o livre mercado recebe. Sobre o capitalismo (a primeira lição) ele diz “O desenvolvimento do capitalismo consiste em que cada homem tem o direito de servir melhor e/ou mais barato seu cliente”. Tal definição desmonta a visão de que o capitalismo é um sistema opressor que gera pobreza.  A pobreza não nasceu no capitalismo. No feudalismo, por exemplo, grande parte da sociedade era pobre e não possuía condições de melhorar de vida (sociedade quase estamental). Com o advento do capitalismo começou a se gerar riqueza.
O ódio ao capitalismo, segundo o autor, não teve origem nos trabalhadores e sim entre os mais ricos. Segue o trecho do livro “É fato que o ódio ao capitalismo nasceu não entre o povo, não entre os próprios trabalhadores, mas em meio à aristocracia fundiária – a pequena nobreza da Inglaterra e da Europa continental. Culpavam o capitalismo por algo que não lhes era muito agradável: no início do século XIX, os salários mais altos pagos pelas indústrias aos trabalhadores forçaram a aristocracia agrária a pagar salários igualmente altos aos seus trabalhadores agrícolas. A aristocracia atacava a indústria criticando o padrão de vida das massas trabalhadora, do nosso ponto de vista, o padrão de vida dos trabalhadores era extremamente baixo. Mas, se as condições de vida nos primórdios do capitalismo eram absolutamente escandalosas, não era porque as recém-criadas indústrias capitalistas estivessem prejudicando os trabalhadores: as pessoas contratadas pelas fábricas já subsistiam antes em condições praticamente subumanas.” Isso mostra um caráter revolucionário do capitalismo, no sentido que sua prática desafiou o interesse daqueles que se consideravam iluminados.
Outro ponto levantado sobre o capitalismo é interessante no livro. De acordo com Mises “Quanto mais se eleva o capital investido por individuo, mais próspero se torna o pais.” Isso ataca duas visões. Uma antiga outra mais contemporânea. A primeira de que um pais rico é aquele que possui mais metais preciosos (mercantilismo). Adam Smith já refutou esta ideia.  Atualmente alguns creem de que um pais próspero é um pais sem desigualdade. Bem se isso é verdade então a Etiópia é um pais próspero. Afinal, de acordo com o índice Gini (que mede a desigualdade social) a Etiópia está bem colocada. Mas o Idh (Índice de desenvolvimento humano) é baixíssimo. Porque? Porque, como Mises explica a riqueza está no capital investido no indivíduo. Um pais pode acabar com a desigualdade social deixando todos pobres. Ou seja não haver desigualdade não é sinal de pais próspero.
Mises é um critico ferrenho ao autoritarismo. Ele aponta como a falta de liberdade econômica pode levar ao autoritarismo. Segue o trecho “Se (o governo) for o dono de todas as máquinas impressoras, o governo determinará o que deve e o que não deve ser impresso. Nesse caso, a possibilidade de se publicar qualquer tipo de crítica ás ideias oficiais torna-se praticamente nula”. Ou seja, não é preciso que o estado destrua todas as instituições, use o exército contra a população, não, basta ter o monopólio de uma forma de comunicação ou simplesmente de papel, afinal sem papel, sem jornais.
Outro tema muito recorrente quando o assunto é capitalismo é a liberdade. Afinal, existe ou não liberdade no capitalismo? Mises argumenta “É verdade que a liberdade possível numa economia de mercado não é uma liberdade perfeita no sentido metafisico. Mas a liberdade perfeita não existe. É só no âmbito da sociedade que a liberdade tem algum significado. Os pensadores que desenvolveram, no século XVIII, a ideia da lei natural – sobretudo Jean-Jacques Rosseau (Pensador iluminista francês) – acreditavam que um dia, num passado remoto, os homens haviam desfrutado de algo chamado liberdade natural. Mas nesses tempos remotos os homens não eram livres – estavam à mercê de todos os que fossem mais fortes que eles mesmos. As famosas palavras de Rosseau ‘o homem nasceu livre e se encontra acorrentado em toda parte’, talvez soem bem, mas na verdade o homem não nasceu livre. Nasceu como uma criança frágil de peito. Sem a proteção dos pais, sem a proteção proporcionada na sociedade, não teria sobrevivido.”. Podemos pensar em um exemplo. Eu sou livre para viajar até Santos agora? A resposta é sim. Eu posso ir andando daqui de São Paulo até a cidade de Santos. No entanto tal percurso é meio difícil mas eu possuo a liberdade para ir até lá. Mas seria mais fácil se eu viajasse de ônibus. Logo surge a questão. Eu tenho a liberdade de viajar de ônibus até Santos? A resposta é: Não se trata de uma liberdade. Afinal eu não criei o ônibus, este foi feito por outras pessoas, usá-lo sem uma troca consentida entre eu e os criadores do ônibus trata-se de um roubo. Logo, trata-se de cercear a liberdade do outro que produziu. Portanto o capitalismo propicia a liberdade individual mas os críticos querem que a liberdade natural intangível este nenhum sistema proporcionou o proporcionará na história.
O socialismo é uma das ideias mais combatidas por Mises. Uma de suas críticas fundamentais (além do problema do cálculo econômico) é com relação a divulgação de problemas e soluções para a sociedade. Segue o trecho “Quando alguém tem uma ideia (no capitalismo), procura encontrar algumas outras pessoas argutas o suficiente para perceberam o valor de seu achado. Alguns capitalistas que ousam perscrutar o futuro, que se dão conta dão possíveis consequências dessa ideia, começarão a pô-la em pratica. Outros, a princípio, poderão dizer: ‘são uns loucos’ mas deixaram de dizê-lo quando constatarem que o empreendimento que qualificam de absurdo ou loucura está florescendo, e que toda gente está feliz por comprar seus produtos. No sistema marxista, por outro lado, o corpo governamental supremo deve primeiro ser convencido do valor de uma ideia antes que ela possa ser levada adiante”.  Isso é possível ser notado com novidades tecnológicas. No capitalismo americano uma empresa pode desenvolver tecnologias como o carro elétrico livremente para solucionar problemas como a poluição atmosférica. Em um sistema marxista tal carro passaria por uma imensa burocracia e provavelmente não surgiria a não ser que um burocrata do governo se beneficie de alguma forma. E se viesse a realidade seria uma tecnologia próxima aos flintstones.

Mises também aponta uma diferença fundamental entre empresas privadas e públicas. Segue o trecho “A situação do indivíduo é bem diversa. Sua capacidade de gerir um empreendimento deficitário é muito restrita. Se o déficit não for logo eliminado, e se a empresa não se tomar lucrativa o indivíduo vai à falência e a empresa acaba. Já o governo goza de condições diferentes. Pode ir em frente com um déficit, porque tem o poder de impor tributos à população”. Mises não era vidente mas este trecho parece uma previsão do atual cenário brasileiro. Uma empresa como a Petrobrás abrigando ratos como diretores que sugaram a empresa para conseguir benefícios políticos e individuais certamente estaria na falência se fosse privada e mal administrada como foi.

Por fim esses comentários que faço são apenas um brevíssimo recorte do belo e esclarecedor livro de Mises que aborda questões como inflação, império Romano, idade média, nazismo e muitos outros temas. Recomendo a leitura imediata para aqueles que não conhecem está magnifica obra. 
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