sexta-feira, 3 de junho de 2016

Livro: As espiãs do dia D

“Não seria uma guerra se pessoas não morressem”
-Flick
O livro “As espiãs do dia D” do escritor britânico Ken Follet é um dos livros mais emocionantes que já li. A história conta a luta de cinco mulheres de lideradas por Flick com intuito de explodir uma central telefônica nazista instalada na França durante a resistência francesa. Com o desenvolver da trama, repleta de revira voltas, é possível ver dois estrategistas duelando. Do lado francês Flick tenta manter uma equipe totalmente inexperiente para uma missão de alto risco. Invadir a central telefônica como faxineira e instalar bombas nos cabos de comunicação nazista. Do outro lado Dieter, o alemão, tenta descobrir, desmantelar e destruir o que ele chamava de “terroristas” (como ele se referia aos franceses que lutaram contra a invasão alemã).
Saindo da ficção e olhando para a história vale lembrar a história de Pearl Witherington, uma mensageira treinada pelo serviço secreto inglês, assumiu com bravura o comando de um grupo de cerca de dois mil guerrilheiros clandestinos da resistência francesa na região de Berry. Witherington foi contemplada com a categoria civil da ordem do império britânico mas recusou pois afirmou que “não ter feito nada que pudesse ser classificado como civil”. Ela não foi coroada com a Cruz militar por ser mulher.
Voltando ao livro. As espiãs do dia D nos traz um forte retrato de como de fato é uma guerra e como a mesma nos desumaniza.  A sensação de que algo terrível pode ocorrer com os personagens permanece o livro inteiro. O medo de que em um amanhecer um grupo da gestapo (polícia alemã nazista que perseguia opositores) pode estar na frente de sua casa. Tal sensação ilustra, de forma sutil, o que era estar em um pais em guerra, e pior ainda, no caso da França na segunda guerra, um pais perdendo a guerra. É importante lembrar que o livro se refere à resistentes, ou seja, pessoas que queriam enfrentar os inimigos. Muito diferente dos judeus na Alemanha que foram simplesmente atacados por serem judeus. O que deve ser ainda mais aterrorizante.
Um trecho de uma conversa entre Flick e Paul no livro, Flick diz (não é spoiler) “É importante as pessoas conhecerem a cultura dos outros, pois isto pode evitar o ódio entre elas”. Pois bem, esta ai um traço da importância da cultura nos dias de hoje. Apresentar grupos diferentes uns aos outros. Ou seja, o cara do centro de SP deve conhecer a cultura do homem do interior e a capoeira que veio da África. E vice-versa. Esta frase de Flick pode ser aplicada até em pessoas. Conhecer um homossexual, por exemplo, pode fazer a concepção de um homofóbico mudar, porque ele irá ver que não se trata de nenhum monstro.
Por último é importante ressaltar a figura de Dieter. O militar alemão é, de fato, uma figura intrigante. Durante o livro é possível perceber um Dieter estrategista, reflexivo, nazista e humano. O estrategista é um Dieter que sabe exatamente como realizar as secções de tortura e perseguir adversários. Sua capacidade de realizar interrogatórios contra os franceses capturados é assustadoramente impressionante. Dieter não usa somente a força física, ele sabe atingir os sentimentos, o coração, o que há de mais importante para a vítima. Hora ele humilha a dignidade, outra ele fere o amor entre duas pessoas ou age de forma e deixar a vítima louca. Outro lado é um Dieter que faz diversas transgressões filosóficas sobre a vida durante o livro, como em suas conversas com a amante. O seu lado nazista também é bastante explorado no livro. Ele se refere aos líderes da resistência como terroristas ou pessoas indignas. O que explica o seu ódio aos adversários, que não se resumia a uma questão ideológica, Dieter de fato odiava seus adversários e isto fica muito evidente durante o livro. Além disso é impressionante como um cara que fez reflexões tão profundas sobre a vida, em partes do livro, não consegue questionar uma ideologia tão estúpida como o nazismo.
O último Dieter a se analisar é o humano. O Dieter que tem filho, esposa, dorme, ama, sente, chora, ri etc. Este é o mais intrigante pois em certos momentos do livro é possível sentir tristeza ao ver este Dieter, que se mantem longe da família, de quem ama e precisa tomar remédios pesados para dormir. Podemos ver a figura por traz do vilão. Uma figura que também possui seus demônios.

Por fim recomendo fortemente o livro. Além de emocionante mostra uma história que não é muito discutida nas escolas. A resistência francesa, e ainda mais mostra a força da mulher na luta contra o avanço do nazismo. Que sejam em campos como Pearl ou em fábricas na Inglaterra, substituindo os homens, entraram para a história.

3 comentários:

"Ninguém jamais calculou com exatidão, nem mesmo os poetas,o quanto suporta um coração"

-Zelda Fitzgerald

Postagens populares

"Os verdadeiros analfabetos são aqueles que sabem ler e não leem"

-Mario Quintana

Arquivo do blog

"Se você tem um coração de pedra faça um bom proveito, o meu é feito de carne e sangra constantemente"

- José Saramago

Pesquisar este blog