“Não seria uma guerra se
pessoas não morressem”
-Flick
O
livro “As espiãs do dia D” do escritor britânico Ken Follet é um dos livros
mais emocionantes que já li. A história conta a luta de cinco mulheres de lideradas por Flick com intuito de explodir uma central telefônica
nazista instalada na França durante a resistência francesa. Com o desenvolver
da trama, repleta de revira voltas, é possível ver dois estrategistas duelando.
Do lado francês Flick tenta manter uma equipe totalmente inexperiente para uma
missão de alto risco. Invadir a central telefônica como faxineira e instalar
bombas nos cabos de comunicação nazista. Do outro lado Dieter, o alemão, tenta
descobrir, desmantelar e destruir o que ele chamava de “terroristas” (como ele
se referia aos franceses que lutaram contra a invasão alemã).
Saindo
da ficção e olhando para a história vale lembrar a história de Pearl
Witherington, uma mensageira treinada pelo serviço secreto inglês, assumiu com
bravura o comando de um grupo de cerca de dois mil guerrilheiros clandestinos
da resistência francesa na região de Berry. Witherington foi contemplada com a
categoria civil da ordem do império britânico mas recusou pois afirmou que “não
ter feito nada que pudesse ser classificado como civil”. Ela não foi coroada
com a Cruz militar por ser mulher.
Voltando
ao livro. As espiãs do dia D nos traz um forte retrato de como de fato é uma
guerra e como a mesma nos desumaniza. A
sensação de que algo terrível pode ocorrer com os personagens permanece o livro
inteiro. O medo de que em um amanhecer um grupo da gestapo (polícia alemã
nazista que perseguia opositores) pode estar na frente de sua casa. Tal
sensação ilustra, de forma sutil, o que era estar em um pais em guerra, e pior
ainda, no caso da França na segunda guerra, um pais perdendo a guerra. É
importante lembrar que o livro se refere à resistentes, ou seja, pessoas que
queriam enfrentar os inimigos. Muito diferente dos judeus na Alemanha que foram
simplesmente atacados por serem judeus. O que deve ser ainda mais aterrorizante.
Um
trecho de uma conversa entre Flick e Paul no livro, Flick diz (não é spoiler)
“É importante as pessoas conhecerem a cultura dos outros, pois isto pode evitar
o ódio entre elas”. Pois bem, esta ai um traço da importância da cultura nos
dias de hoje. Apresentar grupos diferentes uns aos outros. Ou seja, o cara do
centro de SP deve conhecer a cultura do homem do interior e a capoeira que veio
da África. E vice-versa. Esta frase de Flick pode ser aplicada até em pessoas.
Conhecer um homossexual, por exemplo, pode fazer a concepção de um homofóbico
mudar, porque ele irá ver que não se trata de nenhum monstro.
Por
último é importante ressaltar a figura de Dieter. O militar alemão é, de fato,
uma figura intrigante. Durante o livro é possível perceber um Dieter
estrategista, reflexivo, nazista e humano. O estrategista é um Dieter que sabe
exatamente como realizar as secções de tortura e perseguir adversários. Sua
capacidade de realizar interrogatórios contra os franceses capturados é
assustadoramente impressionante. Dieter não usa somente a força física, ele
sabe atingir os sentimentos, o coração, o que há de mais importante para a
vítima. Hora ele humilha a dignidade, outra ele fere o amor entre duas pessoas
ou age de forma e deixar a vítima louca. Outro lado é um Dieter que faz
diversas transgressões filosóficas sobre a vida durante o livro, como em suas
conversas com a amante. O seu lado nazista também é bastante explorado no
livro. Ele se refere aos líderes da resistência como terroristas ou pessoas
indignas. O que explica o seu ódio aos adversários, que não se resumia a uma
questão ideológica, Dieter de fato odiava seus adversários e isto fica muito
evidente durante o livro. Além disso é impressionante como um cara que fez
reflexões tão profundas sobre a vida, em partes do livro, não consegue
questionar uma ideologia tão estúpida como o nazismo.
O
último Dieter a se analisar é o humano. O Dieter que tem filho, esposa, dorme,
ama, sente, chora, ri etc. Este é o mais intrigante pois em certos momentos do
livro é possível sentir tristeza ao ver este Dieter, que se mantem longe da
família, de quem ama e precisa tomar remédios pesados para dormir. Podemos ver
a figura por traz do vilão. Uma figura que também possui seus demônios.
Por
fim recomendo fortemente o livro. Além de emocionante mostra uma história que
não é muito discutida nas escolas. A resistência francesa, e ainda mais mostra
a força da mulher na luta contra o avanço do nazismo. Que sejam em campos como Pearl ou em fábricas na Inglaterra, substituindo os homens, entraram para a
história.

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirÓtimo texto, Luis Felipe.
ResponderExcluirÓtimo texto, Luis Felipe.
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