Define a sua cidade
De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.
Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.
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Este poema de Gregório de
Matos, escrito na época do barroco no Brasil, se trata de uma crítica à Bahia,
escrita por um baiano, que viajou até a Europa e voltou com um ponto de vista
crítico da sociedade, lhe rendendo o apelido de boca do inferno, por suas
sátiras.
De
acordo com Gregório de Matos, a Bahia havia se tornado um local onde se
predominava o furto e a promiscuidade. Esta linha de pensamento é baseada nas
visões que ele tinha da Bahia e comparação à sociedade europeia.
Contra
essa linha de pensamento surgiram várias ideias, que se limitaram a criar um
relativismo cultural, dizendo que na verdade as culturas são apenas diferentes
e nunca melhores ou piores, como se um comportamento, simplesmente por estar
ligado a uma cultura não pudesse ser alvo de crítica.
Esse
relativismo cultural não resolveu os problemas que a visão de Gregório pode
gerar, na realidade essa visão de todas as culturas são iguais, só dificultam
as coisas, só atrapalha o debate, afinal ao fazer uma crítica a uma sociedade
ou á uma cultura, um escritor tem uma visão de como cultura ou um comportamento
pode prejudicar a sociedade.
Pense
bem, a nossa cultura ocidental é apenas “diferente” da cultura (entendendo
cultura como uma herança social) islâmica, onde não existe liberdade para as
mulheres, gays, onde jornalistas são presos apenas por fazer críticas, onde uma
pessoa é decapitada apenas por pertencer a outra religião, não, não apenas
diferente, a cultura ocidental é melhor, porque a liberdade é preservada,
porque as mulheres tem liberdade, gays não são tratados como aberrações, você
possui todo o direito de ter a religião que quiser, você pode ser islâmico,
cristão, judeu, ateu, seja o que for, o estado em sua tese não vai criar leis
para prejudicar uma religião ou favorecer outra.
Mas qual
o problema que pode surgir diante do pensamento de Gregório em falar que a
Bahia tem furtos e promiscuidade? O preconceito,
que pode surgir contra baianos, porque ao ler o poema as pessoas, as pessoas
podem confundir um comportamento cultural e ignorar os indivíduos que compõe a sociedade, que ao analisar uma pessoa devemos
analisá-las como um indivíduo, ou seja por mais que eu critique a cultura
islâmica atualmente, ao conhecer um islâmico devemos enxerga-lo como um indivíduo,
com opiniões pessoais, com experiências pessoais e uma série de características
que lhe descrevem como indivíduo.
Mas isto não me
impede a dizer que a cultura islâmica (por mais que possua características positivas
em alguns pontos) é pior, pois não preserva a liberdade, (por mais que um
islâmico pode sim defender a liberdade) enquanto a cultura ocidental baseada
nos valores da liberdade é melhor, lembrando, ainda que um indivíduo pode ter
suas características, ou seja mesmo alguém nascido em uma cultura melhor ainda
assim pode ser uma pessoa cruel, ruim que não preserva a liberdade, ou seja que
se analise o indivíduo.
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